Pogorzelski & Associados - Advocacia Empresarial

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Os eventos culturais, como decorre de sua própria nomenclatura, associam-se a processos de cultivo às tradições, aos valores intelectuais, morais e também espirituais. São movimentos organizados quase sempre com o fim de criar e difundir as belas artes e as ciências humanas.

No caso especificamente dos eventos temáticos, a cidade de Gramado desponta no cenário nacional. A iniciativa de empreendedores com sólida experiência e dedicação tem resultado para a cidade, seus cidadãos e para os turistas, experiências que rompem com o singelo, alcançando e também ultrapassando involuntariamente o mais íntimo do simbolismo ficcional de crianças e adultos. Veja-se o Natal Luz. Sua dimensão de importância, em termos turísticos e também social local, já ultrapassa o Festival de Cinema, um evento cultural de holofotes sobrepostos apenas sobre os que fazem cinema e corroído por um descaso multidimensional.

O Resgate da Chocofest para a cidade há alguns poucos anos, pelas mãos de uma reconhecida e talentosa empreendedora, trouxe-nos mais um motivo de orgulho no cenário cultural.

O Gramadense costumeiramente orgulha-se da sua cidade, sobretudo como resultado do olhar daqueles que, não vivendo aqui, como a ela se reportam. É certo que os motivos desse orgulho também se encontram em diversificadas razões: gastronomia, segurança pública, qualidade de vida, fauna e flora e clima.

Gramado precisa passar a se orgulhar e cuidar também das pessoas, do seu povo, dos que aqui trabalham e residem, dos que desenvolvem projetos, para que o seu animus de contribuir não esmoreça.

Essa festa do chocolate merece receber da comunidade gramadense incondicional apoio, tanto da iniciativa pública como privada. A função social desse evento cultural modela significativos benefícios locais, a iniciar pelos empregos que gera, pelo fluxo econômico e também, numa dimensão pública, pelos tributos que faz chegar aos cofres públicos.

Em uma sociedade constantemente vitimada pelos ardis do consumismo e do materialismo, a essência de tantos empreendimentos é deixada em plano secundário, passando a receita, o lucro e o viés capitalista a ocuparem os altaneiros lugares do bem comum e da função social. Não se trata de um discurso socialista, senão de um alento para a necessidade de uma visão macrosistêmica, que favoreça a leitura do ambiente social como um todo e não apenas como um objeto a ser explorado por uma força motriz egocêntrica e gananciosa. De outra forma, não teremos como incluir nos motivos de orgulho pela nossa cidade o pensar e o agir dos seus cidadãos.

A Chocofest é o lugar aonde a criança e o adulto, pobres ou abastados, residentes ou turistas, encontram uma doce e bem elaborada festa, com coelhos, personagens, musicais, animações diversificadas, dando lugar em seu imaginário ao aspecto bonito da vida, quer fantasioso, quer não, na medida em que nos é dada essa permissão.

Um evento cultural digno de aplausos, composto por um cabedal de dimensões concomitantes que orgulha os gramadenses que sabem identificar, segundo uma perspectiva mais evolutiva, aquilo que, concretamente, ele representa.

 

Júlio Pogorzelski

Advogado, professor e educador.

Matéria publicada no Jornal de Gramado, edição de 15/03/2014.

Todos os itens que compõem o conjunto arquitetônico cuidadosamente asseados, arrumados. Pisos, paredes, corredores, salas evidenciam um cuidado especial. Mensagens de boas vindas e de incentivo expostas em cartazes, faixas, letreiros diversos. A cada ano, seja como for e de acordo com as mais variadas conveniências e possibilidades, o ambiente deixado ao final do ano anterior se reforma. O prédio, que até então permanecia silencioso, nostálgico e inanimado por dias que para ele pareciam não acabar, exala no ar a expectativa da chegada dos personagens que o ocupam na maior fração de dias do ano. A exemplo do sentimento de ordem emocional que nos acomete no interior de algumas edificações, no prédio da escola, especialmente nas situações de pouca atividade, há uma sensação semelhante. Sentimos algo diferente ali e naquela ocasião. Um silêncio que a todo tempo parece querer nos dizer alguma coisa. Para os adultos talvez se expresse em um agradável sentimento nostálgico que remete ao seu passado naqueles ou em outros corredores semelhantes. Nessa atmosfera, parecemos até sentir penetrante as partículas de uma fragrância tão agradável como o aroma da dama da noite. Sentimento que meus saberes não permitem conhecer com profundidade a razão, apenas opinar e sugerir que o prédio da escola representa um edifício em que não só a construção e difusão do conhecimento humano encontram seu principal lugar, mas qualifica-se com um templo socialmente sagrado.

Aliançados com um sistema nominado Educação são eles os professores, os mestres. Simbolizam o saber, a abnegação, a doçura e o amor. A segunda figura matriarcal ou patriarcal, algumas vezes fazendo-se substituí-los. Derivação de paradigmas, a referência modelar e instrutiva do bem e do mal. Um sorriso seu ou o seu abraço no retorno às aulas fazem toda a diferença. Personalidade única, cuja simbiose com o educando está para além da práxis educativa e não comporta rompimento.

Durante a maior parte do ano letivo eles, ao alunos, contam os dias para a chegada das férias. Torcem os narizes por mais um dia de aula, por ter de acordar cedo, pelas obrigações vinculadas aos deveres de casa e trabalhos solicitados. As notas então, na condição de peso valorativo dos seus esforços, representadas por números, letras, estrelinhas, lhes sobrecarregam a responsabilidade escolar, muitas vezes se confundindo em suas cabecinhas com o próprio valor que carregam perante os professores e os pais. No entanto, embora haja um sem número de fatores que possam ceifar a motivação do aluno no ambiente escolar, eles amam esse lugar. É ali que recebem os carinhos e afetos das primeiras professoras. Sua socialização recebe um impulso sem precedentes. Cultivam amizades, aprendem novas brincadeiras, cantigas e remodelam continuamente os saberes, o que contribui para a profusão de sua autoestima e autonomia, elementos intrínsecos da psique humana que lhes fará toda a diferença comportamental na fase adulta. São eles, os alunos, a quem a escola e seu prédio esperam retornos e chegadas a cada início de ano letivo. As mensagens são para eles. A remodelação de programas de ensino e das expectativas também. O barulho e tremer dos pisos e das paredes da estrutura anunciam não uma baderna, mas uma dinâmica pertencente. E o prédio, numa perspectiva romântica, se regozija, porquanto a marcha dessa legião estudantil ao longo da história a ele se incorporou.

Todo esse contexto inserido em um país democrático. Contexto livre de orientações religiosas específicas e ideologias impeditivas ao seu pleno desenvolvimento. Em detrimento de toda e qualquer circunstância desfavorável que permeie esse sistema, enquanto pais, professores, educadores e alunos, importa-nos, também, apreciar afetivamente a verve poética desse processo. A propósito, Poética foi o título de um dos poemas do pernambucano Manoel Bandeira, que em tais escritos critica as construções líricas comedidas, parcimoniosas, por se refletirem em um lirismo que, em suas palavras, não é libertação.

Júlio Pogorzelski

Advogado, professor e educador.

Matéria publicada no Jornal de Gramado, edição de 28/02/2014.

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