Pogorzelski & Associados - Advocacia Empresarial

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São frequentes as demonstrações de que os discursos, sobretudo ético-moralistas, em muito se distanciam dos atos. O empregado promete não acessar redes sociais ou tratar de assuntos pessoais durante o horário de trabalho. Pouca ou nenhuma chance dessa promessa se cumprir, assim como aquelas de que o casamento durará para sempre, na saúde ou na doença, de que a corrupção não fará parte de um governo, de que todos devem ser tratados com respeito, sem lugar para qualquer forma de discriminação etc.

Se torna ainda mais interessante essa questão quando voltamos mais atrás e rebuscamos na memória não só os compromissos assumidos, mas o convincente e às vezes pomposo discurso para justificá-los.

Toda a promessa se torna um compromisso e sucumbirá, ou não, na exata medida de um interesse pessoal e a sua localização no tempo.

Por ocasião das várias ofensas racistas, proferidas por torcedores gremistas, em desfavor de um grupo de jogadores de futebol do clube Santos, lá estava, dentre os ofensores, uma jovem que soletrava enfática e silabicamente o termo “ma-ca-co”. O que movia essa jovem a ladear os ensinamentos já universalmente considerados de que o racismo não mais deve - e aliás nunca deveu - encontrar lugar em qualquer situação? Seria apenas a revolta gerada pelo fiasco do seu time em seu próprio estádio? Seria a frustração emergente de que um time de futebol deixou de contribuir para que os dias seguintes dessa jovem e de outros torcedores fossem melhores, por culpa exclusiva dos negros em campo? Ou seria de se cogitar, ainda, que essas ofensas resultaram apenas do convencimento de pessoas de que são, de fato, melhores do que outras por causa da cor da sua pele, como se sangue azul fluísse em suas veias? As explicações percorrem os mais variados terrenos do saber, sem dúvida.

Sabe-se que um dos mais recorrentes discursos presentes na sociedade é o de que as pessoas não se julgam racistas, não discriminam. Basta perguntar-lhes. No entanto, basta também, uma certa ocasião - e cada vez mais fútil - para que esse compromisso, esperado de qualquer cidadão, se desfaça imediata e inconsequentemente. Nesse caso, em particular, uma vergonha para o clube de futebol e para os demais torcedores que felizmente, em sua maioria, não partilham dessa postura sectarista.

O que aconteceu, já não pela primeira vez, se reveste de uma vergonha também para os gaúchos e para o estado do Rio Grande do Sul, cujo hino carrega em sua letra orgulhoso incentivo de que “sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra”. Se há tradição de orgulho a ser mantida no estado do Rio Grande do Sul, certamente não é a de um povo que se acha herdeiro de sangue azul ou de uma raça ariana, mas a de um povo que sempre lutou por combater injustiças, firmando suas raízes tradicionalistas nesse mote e sendo assim reconhecido.

Os fatos sociais denotam a diretriz a ser seguida para que se reflita e se busque aquilo que realmente a sociedade está precisando. Embora as injúrias racistas emerjam de vários fatores, o papel dos processos educacionais escolares mostra, mais uma vez, o seu fracasso. Muito mais do que qualquer medida criminal punitiva e indenizações a serem imputadas aos ofensores, a escola deve trazer para si a responsabilidade de implementar em seus planos de ensino dedicação menos recatada à educação em valores. Práticas pedagógicas dessa envergadura, presentes quase isoladamente em algumas escolas do país, favoreceriam a conscientização do quão perniciosos são os atos racistas e assim também outras modalidades de discriminação. Punições podem modelar formas de agir, mas não a conscientização intrínseca do erro refletido e do necessário remodelamento das ações de cada sujeito sociocultural. Tampouco transmudam a dicotomia discurso-ação.

Uma advertência extraída das letras do hino gaúcho: “povo que não tem virtude, acaba por ser escravo”.

 

Júlio Pogorzelski

Advogado, professor e educador.

Matéria publicada no Jornal de Gramado, edição de 02/09/2014.

 

Às vezes somos tomados por sentimentos desamparados de uma razão lógica, consistente o bastante para justificá-los. O mal estar ou até mesmo o luto pela morte de pessoas com certa notabilidade, embora não as conheçamos, é um exemplo. Alternam-se as teorias que procuram justificar esse sentimento. Uma delas invoca a ideia de pertencimento. Podemos nos entender parte, pertencentes a uma importante ideologia defendida por aquela pessoa que desfaleceu para sempre, levando consigo toda a força da defesa de nossas convicções. Daí resulta-nos um sentimento de carência não só pela morte da pessoa, mas de alguém que protestava em nosso lugar ou conosco compartilhava um desejo de racionalizar a nossa própria importância.

Ayrton Senna, Robin Williams, Ariano Suassuna e Eduardo Campos. Para muitos essas pessoas se fizeram conhecidas apenas pela televisão, pelas folhas de jornais ou do noticiário. Embora tão distantes de nossa presença física, vão se incorporando às nossas experiências existenciais, com recados que nos alçam a uma importância evidentemente desprezada por grupos sociais de qualquer natureza ou dimensão, mas especialmente pelo poder público, na pessoa daqueles que invocam nossa representatividade.  Não é outra a razão pela qual  a palavra político assume contornos desprezíveis e insultuosos para a maior fração de uma sociedade. A figura do patriotismo, sustentada em discursos e evidenciada apenas em bandeirinhas nos carros em época de Copa do Mundo, revela o resultado da desesperança em um país machucado pela corrupção e caracteriza um modelo em crise. Dois exemplos do desvalor do povo brasileiro, inválido para lutar em prol de outra realidade, a começar pela pífia educação cidadã e política que recebe.

Ocorrências dessa ordem repercutem em uma carência que acaba por se compensar, mais para uns e menos para outros, pela vitória no futebol e nas corridas de F1, pelas obras literárias de repercussão internacional e pelos discursos de um candidato à Presidência do país que nos pede, altissonante, para continuarmos acreditando no Brasil. Esses notáveis eram apenas nossos compatriotas, mas que nos orgulhavam e nos esperançavam pelo que diziam, faziam ou se propunham a fazer.

Quando nos deixam, como Eduardo Campos, fragiliza-se a esperança, utópica ou realista, em um país melhor, portada no diálogo de um homem de elevado brio que ousou nos incentivar a acreditar no improvável. Ouvindo a mensagem que nutria a ideia de um patriotismo já esquecido, crescemos em importância e valoração, fosse ou não o nosso candidato.

Esses notáveis, partindo como heróis ou candidatos a sê-lo, deixam-nos enlutados, fragilizados. A dor de sua ausência têm rica sintomatologia e viaja pelo território permeável das nossas perdas e carências.

 

Júlio Pogorzelski

Advogado, professor e educador.

Matéria publicada no Jornal de Gramado, edição de 19/08/2014.

 

 

 

 

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