Pogorzelski & Associados - Advocacia Empresarial

Às vezes somos tomados por sentimentos desamparados de uma razão lógica, consistente o bastante para justificá-los. O mal estar ou até mesmo o luto pela morte de pessoas com certa notabilidade, embora não as conheçamos, é um exemplo. Alternam-se as teorias que procuram justificar esse sentimento. Uma delas invoca a ideia de pertencimento. Podemos nos entender parte, pertencentes a uma importante ideologia defendida por aquela pessoa que desfaleceu para sempre, levando consigo toda a força da defesa de nossas convicções. Daí resulta-nos um sentimento de carência não só pela morte da pessoa, mas de alguém que protestava em nosso lugar ou conosco compartilhava um desejo de racionalizar a nossa própria importância.

Ayrton Senna, Robin Williams, Ariano Suassuna e Eduardo Campos. Para muitos essas pessoas se fizeram conhecidas apenas pela televisão, pelas folhas de jornais ou do noticiário. Embora tão distantes de nossa presença física, vão se incorporando às nossas experiências existenciais, com recados que nos alçam a uma importância evidentemente desprezada por grupos sociais de qualquer natureza ou dimensão, mas especialmente pelo poder público, na pessoa daqueles que invocam nossa representatividade.  Não é outra a razão pela qual  a palavra político assume contornos desprezíveis e insultuosos para a maior fração de uma sociedade. A figura do patriotismo, sustentada em discursos e evidenciada apenas em bandeirinhas nos carros em época de Copa do Mundo, revela o resultado da desesperança em um país machucado pela corrupção e caracteriza um modelo em crise. Dois exemplos do desvalor do povo brasileiro, inválido para lutar em prol de outra realidade, a começar pela pífia educação cidadã e política que recebe.

Ocorrências dessa ordem repercutem em uma carência que acaba por se compensar, mais para uns e menos para outros, pela vitória no futebol e nas corridas de F1, pelas obras literárias de repercussão internacional e pelos discursos de um candidato à Presidência do país que nos pede, altissonante, para continuarmos acreditando no Brasil. Esses notáveis eram apenas nossos compatriotas, mas que nos orgulhavam e nos esperançavam pelo que diziam, faziam ou se propunham a fazer.

Quando nos deixam, como Eduardo Campos, fragiliza-se a esperança, utópica ou realista, em um país melhor, portada no diálogo de um homem de elevado brio que ousou nos incentivar a acreditar no improvável. Ouvindo a mensagem que nutria a ideia de um patriotismo já esquecido, crescemos em importância e valoração, fosse ou não o nosso candidato.

Esses notáveis, partindo como heróis ou candidatos a sê-lo, deixam-nos enlutados, fragilizados. A dor de sua ausência têm rica sintomatologia e viaja pelo território permeável das nossas perdas e carências.

 

Júlio Pogorzelski

Advogado, professor e educador.

Matéria publicada no Jornal de Gramado, edição de 19/08/2014.

 

 

 

 

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