Pogorzelski & Associados - Advocacia Empresarial

As notícias apontam uma onda de protestos em várias cidades, sobretudo nos grandes centros urbanos do país. O que parecia uma atividade híbrida, um misto de manifesto local reivindicatório com uma reunião de baderneiros, passou a receber uma propulsão dimensional sequer esperada pelos seus idealizadores.
Se a motivação inicial em São Paulo fora a de reivindicar preços mais baixos para o transporte público, já não resta dúvida de que os protestos seguintes assumiram outra formatação. Atendida a reivindicação de redução das passagens, o movimento não irá refluir porque os cartazes falam em mais saúde, educação e menos corrupção.
As caras pintadas voltaram a aparecer, e acompanhados por diversas categorias sociais, marcaram as ruas do país e também do exterior em protesto aos discursos demagógicos, à corrupção dos governantes e das instituições públicas. Marcando o amanhecer de uma nova postura cidadã, iniciativa que se encontrava adormecida e domesticada por um processo educacional deficiente, o povo brasileiro saiu às ruas para externar sentimentos de repúdio às mazelas do Estado brasileiro. Não é outra a razão pela qual vários movimentos de radicalização ocorreram nos prédios símbolo das instituições mais demonizadas, ojerizadas pelo povo.
A atitude refratária de criminalizar os movimentos, inicialmente pretendida pelos governantes, cedeu dada a desproporção entre os isolados atos de vandalismo e a evidência de que a essência da causa estava mais além. O primeiro sinal já se apresentava nas retumbantes vaias experimentadas pela Presidente da República dias antes. Realidade que recebeu reforço das manifestações realizadas por brasileiros residentes em mais de quarenta cidades, dentre tais Paris, Lion, Frankfurt, Munique, Lisboa, Coimbra, Berlim, Dublin, Roma, Turim e Bruxelas, todas palco de protestos com a mesma motivação. Somente em Paris, uma página do Facebook que orienta o movimento possui mais de seis mil participantes.
Interessante notar que até agora nenhum governante se pronunciou, teve a ousadia moral de dizer que entende a complexidade dos movimentos, de que com eles concorda, de que fará alguma coisa para mudar essa realidade ou, ao menos, de que o seu governo está limpo de qualquer das acusações que embasam o descontentamento nacional.
Fenômeno relativamente novo na história do Brasil, consideradas a sua amplitude e formatação, está aí o recado das ruas: o povo brasileiro está ávido pela recuperação do respeito perdido. Uma orientação de conscientização aos políticos sobre a abominação que sobre eles recai e sobre o necessário resgate dos valores mais essenciais da política, de reconstrução de pontes entre ela e a sociedade e, assim também, da reabertura e desobstrução dos canais entre a sociedade e as instituições. Menosprezar esse movimento, atribuindo-lhe razões incoerentes, merece uma advertência histórica: a decapitação de Luiz XVI na França teve início nas manifestações contra os preços do pão e do sabão e foi a pólvora para o desencadeamento da Revolução Francesa.


Júlio Pogorzelski
Advogado, Mestre em Direito e Especialista em Psicologia da Educação.
Artigo publicado no Jornal de Gramado, edição de 20/06/2013.

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